Pensamentos da festa ruim

Os próximos dias de peso serão
E deve ceder minha plataforma
Meus esforços brilhantes, em vão,
Nesta cidade sem lei e sem norma.

Mas, por enquanto, festejo.
Chão de pedra, rubros sofás,
Paredes iguais como o meu desejo:
Marcha militar. Mudar? Jamais.
E tantos riem ao meu redor…
Estão em guerra.
Quantos amores essa guerra esconde?
Dançam tão leves, tão pó,
A alma berra.
Quer se livrar, ser horizonte.

Uma festa tão pobre e teatral
E eu preocupado com tudo.
Por que a peça insiste, afinal,
Se finda para um teatro mudo?

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O almirante

Um excelso almirante
respira fundo em seus aposentos.
Senta-se a uma mesa
que onde dorme um mapa velho, rasgado.
A lamparina, como mágica,
revela as linhas de um homem pensante,
e seu efeito: rabiscos do sofrimento.

“Tantos dias e noites busquei
Refúgio n’outras águas – falhei.
Minha mentira sem teto
não tem mais relógios para morar.
Está na hora de enfrentar as ondas,
de arriscar afundar no imenso azul
para, enfim, crescer.”

Caminha lento o nobre comandante,
com voz minguante para ordenar
e dor crescente ao raciocinar.
A madeira o suporta, mas range
e o causa estranheza,
pois tamanho rugido nunca ouvira.
Nem do mar.

Uma casca de noz num nada.
“Curvado em meu convés,
no grande horizonte vejo que chegam
as tormentas de mudanças que virão.
E então? E então?
Pode um homem apenas chorar,
se curvado em seu convés,
no grande horizonte vê que chegam
as tormentas de mudanças que virão?
E então? E então?”

Há no mundo

Há neste mundo os que vivem para se largar
Para derramar suas tintas indefinidas
Vê-las conquistar o branco da vida
E marcar o espaço com suas essências

Há, neste mundo, os que não querem escutar
Não querem estudar
Fecham teorias em sacos de lixo
E as esquecem soltas entre prazeres

Há os que não se importam com nada
Mas que também não querem morrer
“Que continuem a gastar os segundos…”
Apesar de tudo, escolhem viver

Há os que não emitem valor algum sobre coisa qualquer
Suas opiniões são brancas como zeros
Nem a matemática os extrai resultados
E nem a arte os pinta de cores

Há os que só querem ser deixados em paz
Há o que detestam pensar sobre o que existe no mundo

Há os que são tudo isso
Os que são algo disso
E os que são nada disso

Mas todos, sem exceção, solitários

Amanhã

O amanhã é um edifício
erguido cinza com alguns tijolos soltos,
pilhas de papel dentro das salas
são vistas pelas suas janelas.
Eles lotam – não há ar.
Alguns deles voam ao redor,
planando até atingir o chão.
O céu, nublado e branco,
é também morto.
Não mostra uma ave sequer.
E visto de baixo por todos,
ele existe só.
Enquanto houver chão para suportá-lo,
ou enquanto houver gente para vê-lo.

Artistas

A nobreza do espírito de quem nasceu para criar
mora num caminho determinado, natural:
apenas esse pode ser; e nenhum outro poderia outrora.

Tuas curvas não tomam conhecimento de desvios,
e mesmo em direções diferentes… sempre certas.
Eis aí, e não em lugar outro, a beleza da arte!
Eis aí seu poder, sua voz, sua soberania,
e tudo se ergue em postura ereta e alta
para que nenhum perdido nas selvas da vida duvide.

Quem pela imaginação foi coroado
jamais perderá sua nata majestade.
Por isso todo ouro do mundo é dos artistas.
Fiquem os filósofos e cientistas com os restos,
os bronzeados e prateados restos.
Os campeões são os artistas, leitores,
e teus destinos me impedem de mentir.

O voo da pedra

Cordas elásticas que me prendem ao tempo…
Que faço delas?
Seja em sujas ou asseadas salas
deste grande prédio que é o mundo,
pouco muda em minhas vontades e medos.
Que faço, portanto?
Se nenhum gelo derrete, nenhuma folha cai
e nenhum sol nasce dentro de mim?

Mas surpreendo quando ainda assim
tais cordas não largam de mim
E mesmo eu sendo pedra que voa no vazio
(Com elas, como não?),
distorções e contrações me dividem
até que cesse meu voo
não sei aonde.

Pois destas cordas elásticas tudo tiro:
pressas ridículas; calmas cadentes;
risos solitários; lágrimas quentes.
Eis que passou um risco e nem vi.
Esperando nada mudar,
perdi a mudança.
E onde havia gelo agora há água,
não há mais folhas em galho qualquer,
e o brilho do sol grita alto
pelas colinas, vales e rios de mim.

Cascos no escuro

Esta nau seguirá valente em frente
deslizando em silêncio sob as
águas pretas da noite sem lua,
sob o céu sem vida das trevas.

Sim, marujos famintos e moribundos!
Ela seguirá!
E o fará com fé
de que dias melhores sorrirão
para seu mastro e vela
para sua madeira e pano!
Com a esperança teimosa e boa
– se é que há outro tipo desta -,
que mesmo depois da morte vil
os segundos passarão mais suaves,
sem ao menos serem sentidos!

Esta nau, senhores marujos,
sente como um coração vivo,
avança como o sangue nas veias,
e quem orquestra isto somos nós,
cérebros ativos, mesmo molambos
e muitas vezes fracos, esquálidos
de viagens que outros homens,
outras águas, outros ventos
outra nau, outras vidas
jamais aguentariam!

Que siga!
Que siga pela noite escura
com a força de nossos gritos!
Que siga e rasgue o fracasso
e o despeje em pedaços
pelo mar morto!
Que siga, senhores marujos,
e que não pare nunca,
nunca mais!