Veloz segunda-feira

Passou rápida a segunda,
nem disse a que veio.
Entrou pela sala e correu
para sair pela porta às onze da noite.

Me perdeu, essa segunda-feira.
(Ou a perdem os homens?)
Mais tempo que me escapou igual.
Uma segunda-feira a menos
no meu relógio da vida.

Que medo macabro este
o medo da velocidade do tempo
passar como fórmula 1
numa manhã de domingo.

Passar como um homem sentado
numa poltrona que comprou há anos
passa os canais que não gosta na tv.

passar como uma mãe que para seu filho
procura ensinar como gira o mundo.
(e saberá alguém como o faz?)
Que procura esconder que todos
– o vovô, a vovó, o titio, a titia –
procuram esconder um medo:
o da segunda-feira passar rápido
e nem dizer a que veio.
Passar pela sala e correr
para sair pela porta às onze da noite.

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Por mim, só eu

Morreu meu quarto virgem.
Construiu-se nele um arranha-céu,
como cidades ambiciosas
e suas casinhas
vítimas do progresso.

Sobe a manhã em seu tempo,
respeita o Sol e só.
Eu saúdo vossa luz
ou mando ao inferno esse azul?

Por mim, só eu.
Arranco as raízes que restam da infância
para não chorar a cada esquina.
Dói.

Por mim, só eu.
Nessa fuga e enfrentamento eternos
do mistério da morte iminente
até o ar me escapa por vezes.

Por mim, só eu.
E lágrima só minha, quente
é café que passa, mente.
E esquenta em fios meu rosto frio.

Por mim, só eu.
E faço um eco na câmara de meu tórax:
jamais o mundo precisou de mim
para conquistar o próximo segundo.

Por mim, só eu.
Ora novo, ora velho.
Ora em pranto, ora em prélio.
Passo após passo por acidente na vida.

Pensamentos da festa ruim

Os próximos dias de peso serão
E deve ceder minha plataforma
Meus esforços brilhantes, em vão,
Nesta cidade sem lei e sem norma.

Mas, por enquanto, festejo.
Chão de pedra, rubros sofás,
Paredes iguais como o meu desejo:
Marcha militar. Mudar? Jamais.
E tantos riem ao meu redor…
Estão em guerra.
Quantos amores essa guerra esconde?
Dançam tão leves, tão pó,
A alma berra.
Quer se livrar, ser horizonte.

Uma festa tão pobre e teatral
E eu preocupado com tudo.
Por que a peça insiste, afinal,
Se finda para um teatro mudo?

O almirante

Um excelso almirante
respira fundo em seus aposentos.
Senta-se a uma mesa
que onde dorme um mapa velho, rasgado.
A lamparina, como mágica,
revela as linhas de um homem pensante,
e seu efeito: rabiscos do sofrimento.

“Tantos dias e noites busquei
Refúgio n’outras águas – falhei.
Minha mentira sem teto
não tem mais relógios para morar.
Está na hora de enfrentar as ondas,
de arriscar afundar no imenso azul
para, enfim, crescer.”

Caminha lento o nobre comandante,
com voz minguante para ordenar
e dor crescente ao raciocinar.
A madeira o suporta, mas range
e o causa estranheza,
pois tamanho rugido nunca ouvira.
Nem do mar.

Uma casca de noz num nada.
“Curvado em meu convés,
no grande horizonte vejo que chegam
as tormentas de mudanças que virão.
E então? E então?
Pode um homem apenas chorar,
se curvado em seu convés,
no grande horizonte vê que chegam
as tormentas de mudanças que virão?
E então? E então?”

Há no mundo

Há neste mundo os que vivem para se largar
Para derramar suas tintas indefinidas
Vê-las conquistar o branco da vida
E marcar o espaço com suas essências

Há, neste mundo, os que não querem escutar
Não querem estudar
Fecham teorias em sacos de lixo
E as esquecem soltas entre prazeres

Há os que não se importam com nada
Mas que também não querem morrer
“Que continuem a gastar os segundos…”
Apesar de tudo, escolhem viver

Há os que não emitem valor algum sobre coisa qualquer
Suas opiniões são brancas como zeros
Nem a matemática os extrai resultados
E nem a arte os pinta de cores

Há os que só querem ser deixados em paz
Há o que detestam pensar sobre o que existe no mundo

Há os que são tudo isso
Os que são algo disso
E os que são nada disso

Mas todos, sem exceção, solitários

Amanhã

O amanhã é um edifício
erguido cinza com alguns tijolos soltos,
pilhas de papel dentro das salas
são vistas pelas suas janelas.
Eles lotam – não há ar.
Alguns deles voam ao redor,
planando até atingir o chão.
O céu, nublado e branco,
é também morto.
Não mostra uma ave sequer.
E visto de baixo por todos,
ele existe só.
Enquanto houver chão para suportá-lo,
ou enquanto houver gente para vê-lo.

Artistas

A nobreza do espírito de quem nasceu para criar
mora num caminho determinado, natural:
apenas esse pode ser; e nenhum outro poderia outrora.

Tuas curvas não tomam conhecimento de desvios,
e mesmo em direções diferentes… sempre certas.
Eis aí, e não em lugar outro, a beleza da arte!
Eis aí seu poder, sua voz, sua soberania,
e tudo se ergue em postura ereta e alta
para que nenhum perdido nas selvas da vida duvide.

Quem pela imaginação foi coroado
jamais perderá sua nata majestade.
Por isso todo ouro do mundo é dos artistas.
Fiquem os filósofos e cientistas com os restos,
os bronzeados e prateados restos.
Os campeões são os artistas, leitores,
e teus destinos me impedem de mentir.