Relatório da alma de um perdedor

Em aberração revoltosa,
fez-se do esforço o fracasso.
E vazio provou-se o grito,
vazio provou-se o suor.
E tenho o privilégio de ver se abrindo
um bom exemplar de alma perdedora,
e é assim, e não de outra forma,
o que ali vejo, o que ali há.

Balões inflamam em chamas – vão estourar –
em câmaras cujas paredes
são crostas de dor e sangue seco.

Há, nesta alma azarada,
mãos de grossas garras
que irritam e arranham,
que atrapalham e destroem,
que rasgam (e também a si),
o tempo, senhor e criança.

Há nesta alma um tumor,
uma massa irregular pétrea,
a se arrastar e se alimentar
de derrotas em quaisquer disputas.

Há também nesta alma
um político rebelde
que insiste em fazer oposição
ao Destino, imperador do mundo,
e gravar para sempre seu nome
nos inválidos avessos da história.

Há, nesta alma que se abre,
as trancas e cadeados sem chave
das conquistas que jamais puderam ser.

Sim. Eis a alma de um perdedor,
indústria de frustrações eternas,
de falsas e efêmeras glórias,
e de esquálidas esperanças
que não conseguem andar ao nascer.

Cadeira de balanço

Cadeira de balanço,
por que não balanças comigo?
Afinal, com frequência fadigo,
e procuro parar quando canso…
Mas nunca, nunca eu balancei
numa cadeira de balanço.

Tenho nisso grande frustração
em minha vida adulta e sua provação.
Pois é das singelas, domésticas ações
que se faz o júbilo nos bons corações.

Então por que não comigo, pergunto.
É o meu corpo longo e estranho?
Minhas pernas em desconjunto?

É claro que me sinto um marginal!
Não balanço como os outros, afinal.
E formatos nossos desconversam,
sem concordar em uma só afirmação…
É enquanto meus dedos versam
que enuncio certeza da falta de ação:
para o mundo não fui feito.
Não balanço. Não tem tem jeito.

E ponho a me perguntar:
em qual resto fétido de mundo
viverei eu comigo mesmo,
que não consigo – sem nem saber por quê –
balançar numa cadeira de balanço?

Construção incompleta

Até quando aguentar
este inferno de prédio e poeira
que é construção incompleta
ninguém sabe do que?

…plantar
perguntas fertilizadas de dor
para colher, no fim,
– e como poderia não ser? –
mais perguntas maduras?

…aturar
vozes comandantes,
as correntes da cultura
e do mundo de defeitos?

…mergulhar
em mares do próprio ser
e esperar, lá no fundo,
morrer (viver) da forma certa?

O coração é um poema

Este coração que bate
esquecido entre os segundos do dia,
que sustenta sem ser sentido
e que agita as veias de dentro,
é rico de vida insistente.

Este coração, valente bomba
que explode sem ser lembrado,
é o mais belo dos poemas:
Funciona como se…
jamais…
fosse…
parar.

Sou menor do que um livro

Como odeio ser limitado à humanidade!
Pois tenho vontades pela arte que
simplesmente não podem ser satisfeitas ou
colocadas de lado por qualquer tempo.

Maldito descompasso, aliás!
Como posso humano ser e
Pedir o que humanos não podem ter?
Talvez justamente, afinal,
Por humano ser.

O ardente desejo de mergulhar nos livros
Nas células de papel e tinta
Para absorver de uma só vez
O conhecimento vasto que pode me dar

Ah, quadros do mundo!
Não sei se comemoro ou odeio
o fato de eu ter nascido quando nasci!
Quantos quadros ainda não vi?
Quantos quadros não foram criados?

Oh, sons de todas as culturas!
Sou um lixo! Um descartável ouvido
para suas multiplicidades!

A vontade que dá é de gritar a todos
uma ordem imponente e brilhante:
parem de criar neste instante!
Pois estou atrasado e preciso acompanhar…

É pressa, sim, é a pressa que me move!
Tão pouco tempo temos para viver e
ver o mundo como ele é por inteiro!
Some à imensidão do mundo que menciono
a profundidade das artes já produzidas:
os livros, os quadros, as músicas
Como são muitas e eu, tão pouco!
Tão pouco… pressa burra a minha, sim…
Mas mais forte que eu… mais forte que eu…

Mata de figuras de linguagem

Procuro uma metáfora.
Procuro ou caço?
Se elas andam por aí e pastam,
procuro ou caço?
Elas se camuflam!
Sim, entre palavras e sentidos.
E se camuflam-se,
procuro ou caço?
Se elas resistem a mim
e às minhas intenções,
procuro ou caço?

Quero apenas dizer sentimentos,
como homens querem comida,
como predador quer presa.
E para isso, digo, preciso de metáforas.
Por isso caminho atento
pela mata de figuras de linguagem.
Pleonasmos se erguem alto no céu,
metonímias cantam em seus troncos.
Zeugmas bebem água do rio
e onomatopeias rastejam no chão.
Vejo até ironias brigando ao longe,
mas não vejo as metáforas,
as malditas metáforas que preciso.

Crescendo

Desimportante é a gana pela vida
Possibilidades infinitas
E no fim, a condenação universal:
chorar ardentes lágrimas
com a tristeza do desejo inútil
de voltar à infância querida
para brincar em todos os lugares
que deveríamos ter conhecido