Construção incompleta

Até quando aguentar
este inferno de prédio e poeira
que é construção incompleta
ninguém sabe do que?

…plantar
perguntas fertilizadas de dor
para colher, no fim,
– e como poderia não ser? –
mais perguntas maduras?

…aturar
vozes comandantes,
as correntes da cultura
e do mundo de defeitos?

…mergulhar
em mares do próprio ser
e esperar, lá no fundo,
morrer (viver) da forma certa?

O coração é um poema

Este coração que bate
esquecido entre os segundos do dia,
que sustenta sem ser sentido
e que agita as veias de dentro,
é rico de vida insistente.

Este coração, valente bomba
que explode sem ser lembrado,
é o mais belo dos poemas:
Funciona como se…
jamais…
fosse…
parar.

Sou menor do que um livro

Como odeio ser limitado à humanidade!
Pois tenho vontades pela arte que
simplesmente não podem ser satisfeitas ou
colocadas de lado por qualquer tempo.

Maldito descompasso, aliás!
Como posso humano ser e
Pedir o que humanos não podem ter?
Talvez justamente, afinal,
Por humano ser.

O ardente desejo de mergulhar nos livros
Nas células de papel e tinta
Para absorver de uma só vez
O conhecimento vasto que pode me dar

Ah, quadros do mundo!
Não sei se comemoro ou odeio
o fato de eu ter nascido quando nasci!
Quantos quadros ainda não vi?
Quantos quadros não foram criados?

Oh, sons de todas as culturas!
Sou um lixo! Um descartável ouvido
para suas multiplicidades!

A vontade que dá é de gritar a todos
uma ordem imponente e brilhante:
parem de criar neste instante!
Pois estou atrasado e preciso acompanhar…

É pressa, sim, é a pressa que me move!
Tão pouco tempo temos para viver e
ver o mundo como ele é por inteiro!
Some à imensidão do mundo que menciono
a profundidade das artes já produzidas:
os livros, os quadros, as músicas
Como são muitas e eu, tão pouco!
Tão pouco… pressa burra a minha, sim…
Mas mais forte que eu… mais forte que eu…

Mata de figuras de linguagem

Procuro uma metáfora.
Procuro ou caço?
Se elas andam por aí e pastam,
procuro ou caço?
Elas se camuflam!
Sim, entre palavras e sentidos.
E se camuflam-se,
procuro ou caço?
Se elas resistem a mim
e às minhas intenções,
procuro ou caço?

Quero apenas dizer sentimentos,
como homens querem comida,
como predador quer presa.
E para isso, digo, preciso de metáforas.
Por isso caminho atento
pela mata de figuras de linguagem.
Pleonasmos se erguem alto no céu,
metonímias cantam em seus troncos.
Zeugmas bebem água do rio
e onomatopeias rastejam no chão.
Vejo até ironias brigando ao longe,
mas não vejo as metáfora,
as malditas metáforas que preciso.

Crescendo

Desimportante é a gana pela vida
Possibilidades infinitas
E no fim, a condenação universal:
chorar ardentes lágrimas
com a tristeza do desejo inútil
de voltar à infância querida
para brincar em todos os lugares
que deveríamos ter conhecido

Passionfruit

Em planos distantes à razão
fundem-se energias sem nitidez
sonolentas pelos salões de aconchego,
entorpecentes
na boate de fantasmas.

Faz-se da música a calma
e tudo que é metafísico se solta
e relaxa em frequências baixas
e dorme mesmo morto
na boate de fantasmas.

Anestesias para dores que estiveram
um dia, que choro fizeram um dia
E ondas grandes e lentas como o mar,
como o mar dos vivos
na boate de fantasmas.

Os desimportantes ditos e não ditos
de épocas da carne e da mente
são nada, nada! E perguntemos
o que poderiam ser
na boate de fantasmas?

Lembranças espalhadas pelo chão
de passadas casas velhas e novas
e paixões de família e afins.
Como é bela a morte
na boate de fantasmas!

O mágico no anfiteatro de pedra

O mágico das pilastras de mármore
me fez um truque brilhante:
brilhos de cor e de luz
para tirar flores do vazio.

“A vida é uma palhaçada”,
me dizia com seu turbante.
E eu não sabia em quem acreditar:
no mágico, na flor, ou no nada.

Perguntei de ingênua voz,
já decerto sendo irritante:
“Por que não fostes palhaço,
já que brincas com a vida assim?”

O mágico chegou perto e,
entre as brancas pedras polidas,
com igual polidez me respondeu:
“Palhaços ganham menos”.
E sem cerimônia qualquer,
desapareceu.