Mundo de restos

Desceu para o porão meu pai
e encontrou-me encolhido,
amedrontado com os barulhos
não dos aviões, dos gritos.
Não das bombas, dos choros.
Não dos tiros, das mortes.
“Você deve ver uma coisa”
Disse-me o homem fardado
E obrigou-me a subir para ver a cidade.
Eu, fraco peixe de águas profundas,
tinha horror à superfície.
Havia muita luz e ignorância
(sempre desprezei iluministas).
“Vá”, disse meu pai, “será bom para ti”.

Ao segurar com as mãos trêmulas
a escada de madeira podre
desejei uma queda fatal.
Em vão. Cheguei ao final.

Vi uma massa marrom e preta
que era a pele do mundo:
se estendia decerto pelo globo todo.
Pensei na extinção da água – senti sede.
Pensei no fim das colheitas – senti fome.
Vi as árvores e seus galhos pelados
e minha mente em silêncio – senti frio
(nem um pensamento para aquece-la).

Era de fato uma paisagem de restos.
Restos de gente em restos de chão
rodeados por restos de prédios
queimados por restos de fogo
e restos de fumaça em restos de céu.
Os sons que restavam rastejavam répteis
enquanto que antes voavam aves.
Completude ali havia em mim
e em meu terror apenas.

“Eis aí, meu filho,
um país morrendo pela doença da guerra.
Um campo de batalha perdido
entre tantos outros…
Cenas que são consequencias esquecidas
de raciocínios bélicos.
Acredite em mim quando digo:
essa monstruosidade é uma gota
no oceano da podridão humana”.
Busquei razões em gavetas vazias
de que meu pai estava errado.
“É preciso endurecer a alma:
torná-la sólida.
Vive-se mais assim”.
Eu revirava as gavetas e procurava,
em desespero, no leve nada.
“Não aguenta mordidas quem não produz veneno.
E o mundo é cheio de serpentes”.
Morreu minha busca e nasceu meu choro.
Os restos de infância me pesavam
e meu pai desceu para o porão.

Chorei sozinho por horas.
Quando parei, não me incomodavam mais os restos.
Eu era parte dele. Responsável por ele.
Entendi: meu pai me fizera resto por amor
Pois num mundo de restos, um inteiro não tem lugar.
E eu e meu pai éramos também restos.
Só não tivemos a sorte de morrer.

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