Zero hora e pedras portuguesas II

Como sempre fiz e achei que faria,
abri os pulmões e a alma e
esperei que o mundo me preenchesse
da rica matéria prima dos poetas.

Sempre me dei bem em noites chuvosas.
Vi-me um tolo, repugnante, porém,
quando gritou o vazio mais alto que a poesia.
Poderia ser? Poderia?

Olhos meus,
tão ágeis e ansiosos procuraram ao redor
evidências brutas, pertences caídos,
moedas e papéis esquecidos pelo caminho.
Algo perdi. E como encontrar uma abstração?
Era uma imponente conclusão
e eu mesmo queria me impedir de ver:

Nada mais me dava poesia.
As folhas secas levadas ao vento,
elas não me davam mais poesia.
A laranja luz das ruas,
ela não me dava mais poesia.
O céu, o formoso céu que a tudo engole,
ele também não me dava mais poesia.

E assim percebi, em choro iminente,
que a arte me dava as costas, indigente.
A anterior amostra voltou a ser mundo cru,
a pedra dura da razão é a matéria que tudo faz.
A matemática, o porquê último da existência,
meu pior pesadelo feito realidade!

Chorei ali mesmo, na rua, negligente,
e fui tomado por louco pelos seres ao redor.
Pouco me importa! Nada mais tenho!
Sou pó! Sou pó! E talvez sempre tenha sido.
Sou só! Sou só! E talvez sempre tenha sido.
Preciso esquecer-me! Por Deus, preciso!
Ou de nada servirá meu corpo de sangue,
de nada servirá meu pensamento errante,
de nada servirá o meu sensível olhar.

Maldito mundo usurpador que me afoga em mim!
Me retira os prazeres como inocências de crianças!
Sim! O mundo é feio e admite! É feio e admite!
Preciso esquecer! Por Deus, que eu esqueça!
O preço caro que se paga pra que a alma cresça!
O chão some na escuridão e eu caio para sempre,
e minha vida agora é queda.

Resigno. Voltemos.
Três passos são o suficiente e então eu vejo:
uma criança em minha frente, não mais do que quatro anos,
chama os pais: “vejam que prédio grande!”.
De sua boca saíram cores e minha esperança.
Minha alma num súbito renovou-se! Milagre!
É poesia! É poesia! É torta, mas é poesia!
É poesia que saiu da cena! Poesia plena!
Que venha à vida! Que nasça! Que viva!

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