Dentro

Repensei tua repetição e reparti sentidos
Resenti, partido.
E o coração gripou sem chá
gritou sem lar
quebrou sem par.

Morreu.
Morreu tanto,
e tão morto,
que voltou torto
e ressuscitou mal.

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Estrelas da lagoa

Eu lembro de tudo:
as estrelas na lagoa ensolarada,
rebentas da água e da luz,
pulando de alegria contigo.
E você, de biquini e costas vivas,
tentava pegar os peixes com as mãos…

Eu tentava pegar o tempo com as mãos
E esticá-lo para sempre
e colocar no bolso dos séculos
você, com as estrelas da lagoa.

Pus o sal das lágrimas na água doce,
posto em pranto, peixes e perguntas:
de que vale qualquer outra coisa?
Por favor,
alguém avise aos diplomados,
aos drogados, imbecis e atletas,
que há estrelas na lagoa,
que vida é nada,
e que estão os artistas e os românticos
no topo da experiência universal.
Eu já cansei de dizer-lhes isso.

A grande mulher grisalha

Veja, meu amor,
como a juventude,
que tinha odor de cereja,
(fresca) esbraveja
em corpos que não os nossos.

Veja, meu amor,
como já não nos animamos
– como batia feliz nossos corações! –
com as coincidências do trabalho…
Inanimados, quase! E as migalhas que juntamos
são agora pães
e não sabemos o que fazer com eles.
como terminar com eles.

Veja, meu amor,
como passaram velozes os dias,
e ainda assim são os mesmos, os mesmos!
Como espratearam nossos cabelos
(foi o tempo que pôde vencê-los)
e como nossas meninices ficaram marcadas
nas escadas de pedra da cidade,
nas estradas de terra do mundo,
nas paredes dos nossos crânios,
e no bolso larápio dos segundos.

Veja, meu amor,
como hoje estamos gastos.
Nos falta óleo, enferrujamos.
E mesmo que fujamos
para olhar a nós mesmos
em qualquer esquina ou festa,
saberemos sempre:
a juventude é tão bela que parece ser imortal.
E talvez não só pareça:
nos convence que é imortal;
nos veste como imortais;
nos ferve como imortais;
nos queima como imortais;
nos infla como imortais…

E depois, meu amor,
somos assaltados.

Sobre todos os reis do mundo

Desço escadas devagar
– as que se ergueram no nascer do reino –
e sinto o corrimão de ferro
já quente do sol
desta manhã preguiçosa.

Eu não comprei as pedras
que esquentam, a cada passo,
meus pés descalços.
Conquistei a terra, dizem.
Mas são as pedras minhas?

Eu não comprei as árvores de flores,
que assistem meu acordar diário,
tampouco os insetos e pássaros,
que nela vivem breves,
súditos que rei nenhum.

Vivem breves meus súditos,
entre trabalho e sorrisos sem direção.
Gastam suas horas misteriosas
em comércio, bebida, guerra, sexo.
E eu furo seus cotidianos constantes,
e eles me fazem gestos de saudação,
de homenagem – reverências calorosas.

Eu não comprei essa gente.
Não comprei suas casas, seus animais,
seus filhos e filhas que descobrem a vida.
Não comprei sua lealdade, sua simpatia,
não comprei suas lágrimas na derrota,
seus urros na vitória.
Essa gente é minha?

Pelo que conquistei me chamam rei.
Mas o tempo não para quando mando,
nem o sol some quando quero dormir.
Sou o Rei do que não importa,
como todos os outros antes de mim
e todos os outros depois de mim.

Mendigo

Resistentes na chuva
de pingos (amadurecem),
mas findou o pranto e a dor
da maturidade.
Fez-se do chão molhado
o cotidiano excelso de bueiros.
O que é o pecado
se Deus é a comida?
As núpcias valem postes,
asfalto, sinais, prédios.
Mas para as telas e janelas,
para os olhos do globo,
são filme mal avaliado.
O homem sentado.
O homem dormindo.
O homem sujo.
Se o tempo os engole,
vomita depois.

Avermelhado

Há sangue no chão
Há sangue na pia
Há visões de silhuetas singulares
E engravatados ao celular
“Vai acabar”, eles dizem
“O mundo vai acabar”.

As crostas que se empilham
Entre os dias que escorrem
Entre as pedras que populam
qualquer parte da cidade
O tempo que nelas vê refúgio
E some de nós, some sem voz
Para gritar depois nas memórias
e torturar a gente.

Há pessoas demais
Com sacos plásticos e olhares soltos
Com roupas malfeitas
E a alma dormente.
Há moradores de rua
Naquela rua outrora livre
De moradores de rua.
Há pixações e nelas um mundo
Ou vários: um a cada milímetro de tinta
E apesar do peso da matemática do existir
Os pés continuam obedientes:
um depois do outro.

O relativo e o absoluto

O relativo é o algo que depende.
O absoluto é o algo independente.
O relativo é o absoluto sem soberania.
O absoluto é o relativo sem curva.
O relativo é o absoluto rebelde.
O absoluto é o relativo sem rebeldia.
O relativo é um prisma.
O absoluto, um foco.
O relativo é múltiplo.
O absoluto é o relativo menos
(todos menos um).

Mas não está o absoluto
em relatividade qualquer.
E vice-versa.
O relativo é a porta a ser usada.
O absoluto é tranca.
O relativo corre e manca.
O absoluto imove.
O relativo chove.
O absoluto seca.
O relativo gera verdades
e o absoluto mente sobre elas.