Relógio de bolso

Guarde nossas noites num relógio de bolso
e quando quiser esquecer do tempo
puxe a corrente e lembre-se
sorria ou esconda um sorriso
e queime de saudade do chão
por onde andamos felizes.

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Gelo, pedra e areia

Mas nessa baía de gelo, pedras e areia
quais sonhos prosperaram
a não ser os já mortos?

Pois há os que não se levam a sério.
são tapinha no ombro.
são jocosos.
Destes pobres coitados, que se faz?
Nessa baía de gelo, pedras e areia
pode-se afoga-los.
golpeá-los com uma pedra,
caso resistam.

Toda manhã simpática
descem da colina moradores diversos
todos eles com seus sonhos no bolso.
Um pesa mais, o outro manca.
O outro chora e hesita.
A outra termina com tudo bem rápido.
As crianças só observam: aprendem.
Um dia será o sonho delas a morrer ali.

Escrevo para o mundo
que nessa baía de gelo, pedras e areia,
onde não vemos pele humana longe da lareira,
de casas de família ou da cadeia,
a vida é cortada ao meio.

D. Ciência

Dona ciência certas noites
posava de realeza para desfilar o que sabia.
Eu, servo, dizia:
“Por que defende-se, Dona Ciência?
Quem está te atacando?”
E ela, tão soberana,
via em mim uma equação resolvida.
Sem o caos do drama,
me respondia com o som do zero.
E até hoje um número espero.

Mas morre de esperar quem não é santo.
Dona Ciência foge tanto,
e tampa com as variáveis
suas carnes que gritam por sangue.
Debaixo desse vício pelas causas
e dessa régua para consequências
há um coração batedor valente,
já vencedor da guerra da gente,
que te tem em coleira e corrente.
Inútil a medicina para dizer
que isso bem não deve fazer.

E eu teimoso, toda noite, perguntava:
“Por que divorciar-se da emoção?”
Posto mais zeros (eu já seria bilhão),
continuava:
“Dissesse eu que te amo, pedirias autor e citação.
Correrias envergonhada pelos campos
– e os seus são brancos e floridos de letras negras –
a buscar nas primeiras frases dos resumos
qual mente Ph. D. que inventou o eu te amo.
Mas Dona Ciência, mal sabes,
e decerto descobrirá:
todo eu te amo sincero
é sempre o primeiro já dito.”

O derrame da terra

“Eles trocam tiro com a chuva porque ela é inimiga.
Volta e meia leva a casa de alguém.”

Derrama, terra! Faz valer tua resposta aos homens.
Invada suas cozinhas e estômagos,
entupa-os de vida e minhocas,
faz um mundo de dentro deles
e reconquiste o que é seu.

As casas tão mortas e vãs
que escondem cadáveres invisíveis
sumiram todas (todas!)
no fundamento das florestas.

Há micos, cobras, insetos, onças
formigando em cada pó de terra
e todos vibram a vitória.
Brindam nessa noite de lágrimas
os invertebrados com vertebrados;
os sangue frio com os sangue quente;
e os pássaros e gaviões
são helicópteros da televisão.

“O sol que acarinhava telhados,
no dia seguinte,
acarinhou destroços e desastre.
E o fez com igual plenitude e prazer.”

Engarrafo

Depois da briga
seguimos cada um para um lado:
ela com os vinhos
e eu com a rejeição que não engarrafa.

Engarrafável fosse,
eu tomaria,
e acabava.
Problema do meu fígado. Tanto pior.

Mas por que tentar a engolir em vão
se essas coisas quem resolve mesmo
é o coração?

Alvará

Você tem um alvará?
Cuidado. O alvará mata.
Conheço um cara que morreu
engasgado nos papéis mal impressos
da Prefeitura.

Na prefeitura tem mal encarados
com maus salários e má vida.
Eles não pedem nada da vida…
só um alvará.

Eles querem saber se o rei dos papéis
autoriza seus súditos
a respirar.

O rei dos papéis nunca chora.
Não tem porquê.
Ele tem alvará.
E pendura no varal
o tempo que perdemos.

Fake news

Inflamo, inflamo. Danço comigo.
Essa dança mata, mata! Mas não hesito.
Sem quesito, sem questão, amo!
Amo sem ranço um perigo à esmo,
solto, vou falando e foda-se.
Vou brigando
e se tiver soco, socarei.

Lindo é o meu lado do quadrado.
Seja azul ou vermelho, só vive o meu.
Na granja dos que discordam,
fogo é o destino.

Minha carteira está intacta,
inteira e cheia. Impacta.
Só preciso decidir: cheia de quê?
Cheia de identidade!

Mais um braço criarei pra censurar.
Mais um olho criarei pra patrulhar.
Mais história viverei pra recontar.
Mais verdades caçarei pra estuprar.

Deito para dormir sorrindo,
para acordar gritando.
Sem dúvidas. As mato,
asmático de razão que sou.