Rosto torto

O tempo não enferrujou a espada.
Fogo nas velhas flechas! Que caia o coração!
A cena perfeita dos finais ruins
e faço para a dor uma recepção.

Pois daqui a pouco, sumo!
Sumo com meus erros e acertos.
E como ficarão as pegadas
de quem nunca andou?

O sujo chão de concreto me abraça.
Desisti do amor em Copacabana,
retomei o amor em Copacabana,
e morrerei de amor em Copacabana.

Respondam-me os sábios,
apenas se resposta possível houver:
para onde vão, no final de um beijo,
os pensamentos de uma mulher?

O voo da pedra

Cordas elásticas que me prendem ao tempo…
Que faço delas?
Seja em sujas ou asseadas salas
deste grande prédio que é o mundo,
pouco muda em minhas vontades e medos.
Que faço, portanto?
Se nenhum gelo derrete, nenhuma folha cai
e nenhum sol nasce dentro de mim?

Mas surpreendo quando ainda assim
tais cordas não largam de mim
E mesmo eu sendo pedra que voa no vazio
(Com elas, como não?),
distorções e contrações me dividem
até que cesse meu voo
não sei aonde.

Pois destas cordas elásticas tudo tiro:
pressas ridículas; calmas cadentes;
risos solitários; lágrimas quentes.
Eis que passou um risco e nem vi.
Esperando nada mudar,
perdi a mudança.
E onde havia gelo agora há água,
não há mais folhas em galho qualquer,
e o brilho do sol grita alto
pelas colinas, vales e rios de mim.

Cascos no escuro

Esta nau seguirá valente em frente
deslizando em silêncio sob as
águas pretas da noite sem lua,
sob o céu sem vida das trevas.

Sim, marujos famintos e moribundos!
Ela seguirá!
E o fará com fé
de que dias melhores sorrirão
para seu mastro e vela
para sua madeira e pano!
Com a esperança teimosa e boa
– se é que há outro tipo desta -,
que mesmo depois da morte vil
os segundos passarão mais suaves,
sem ao menos serem sentidos!

Esta nau, senhores marujos,
sente como um coração vivo,
avança como o sangue nas veias,
e quem orquestra isto somos nós,
cérebros ativos, mesmo molambos
e muitas vezes fracos, esquálidos
de viagens que outros homens,
outras águas, outros ventos
outra nau, outras vidas
jamais aguentariam!

Que siga!
Que siga pela noite escura
com a força de nossos gritos!
Que siga e rasgue o fracasso
e o despeje em pedaços
pelo mar morto!
Que siga, senhores marujos,
e que não pare nunca,
nunca mais!

The train

Far, far away a train calls me
by lovely sounds of saxophone
and I don’t know if I follow its rail
or watch it fade in the horizon.

The doubt conquers me,
but one rare fact I know
– and I shall treat it like diamond:
I can’t board in my delusions
using choices of another.
All the weight of charcoal and iron,
whether it follows me like despair
or it leaves me like love,
will be mine, mine only – inevitable.

To which misplaced place it would take me
I do not know nor wish to discover,
although moving and trying are what
a true living man would do…
But is it?
For could not this place where I’d go
be somewhere I’ve been before
and hitherto I hated it with all my heart
but can’t remember?

All those thoughts about decisions,
could not make them altogether…
they could only create the fog,
the cold fog of thoughts that
sometimes invades my pity mind.

And the train faded alone,
along with its smoke and lovely sounds,
and I sat on the nearest bench.
The world was still there, indeed,
but nothing further, for there is nothing.

Seja bem-vindo

Recebo-te de abertos e fortes
braços e abraços em pranto,
sem saber da felicidade
– sem poder nem imaginá-la! –
que sentiria ao te ver.
Uma pessoa de brilhos! Sim!
Vivi para receber nesta arena
uma pessoa de brilhos que negava,
refutava, vergastava com fogo ardente
o próprio brilhantismo inédito.

Recebo-te feliz!
Que seja você bem-vindo à vida
do outro lado da ponte da cultura!
Que seja você bem-vindo à vida da falta,
falta das restrições ridículas,
falta das convenções vazias,
falta de algo nosso que grita,
que pede, que nos faz buscar,
que nos faz doer, que nos faz rir,
chorar, pensar em morrer,
mas que nos enche de amor pela vida.

Bem-vindo, portanto!
À primeira vida que podes chamar de tua!
Ah, e para que vivemos se não para isso?
Que seja bem-vindo ao teu espaço,
à tua luta, as tuas vitórias e derrotas,
que seja bem vindo à dor!
A maldita, a maldita dor
da existência imposta
desde o nascimento não pedido.
Que seja bem vindo à loucura,
à insensatez aos olhos da sociedade,
aos ventos que expulsam da alma
a construção de um Deus de vela e papel!
Que seja bem-vindo, meu amigo!
Aqui, serás primeiro!
Serás de teu navio o timoneiro,
até que se caia
quando o mar acabar.

O tolo e sua cidade

Como é linda a minha cidade!
Tem casas de boas pessoas
e carros que andam brinquedos…
Paisagem feliz do tempo!

As casas da minha cidade
encaixam nas ruas limpas.
Parecem amigas adolescentes,
tão sorridentes com a vida!

As casas da minha cidade
são todas simpáticas!
Um ar azul as cultiva
(Um ar) do inverno que acaba
E da primavera que nasce.

As casas da minha cidade
ao contrário das outras,
enfeitam a natureza
e com ela concordam sempre.

As casas da minha cidade
dançam com o verde das árvores
e tem um lago tão legal
que dá até vontade de beber!

Estejam avisados os juízes e
escritores da eternidade:
o ser humano não é um fracasso
porque minha cidade existiu.

Relatório da alma de um perdedor

Em aberração revoltosa,
fez-se do esforço o fracasso.
E vazio provou-se o grito,
vazio provou-se o suor.
E tenho o privilégio de ver se abrindo
um bom exemplar de alma perdedora,
e é assim, e não de outra forma,
o que ali vejo, o que ali há.

Balões inflamam em chamas – vão estourar –
em câmaras cujas paredes
são crostas de dor e sangue seco.

Há, nesta alma azarada,
mãos de grossas garras
que irritam e arranham,
que atrapalham e destroem,
que rasgam (e também a si),
o tempo, senhor e criança.

Há nesta alma um tumor,
uma massa irregular pétrea,
a se arrastar e se alimentar
de derrotas em quaisquer disputas.

Há também nesta alma
um político rebelde
que insiste em fazer oposição
ao Destino, imperador do mundo,
e gravar para sempre seu nome
nos inválidos avessos da história.

Há, nesta alma que se abre,
as trancas e cadeados sem chave
das conquistas que jamais puderam ser.

Sim. Eis a alma de um perdedor,
indústria de frustrações eternas,
de falsas e efêmeras glórias,
e de esquálidas esperanças
que não conseguem andar ao nascer.

Cadeira de balanço

Cadeira de balanço,
por que não balanças comigo?
Afinal, com frequência fadigo,
e procuro parar quando canso…
Mas nunca, nunca eu balancei
numa cadeira de balanço.

Tenho nisso grande frustração
em minha vida adulta e sua provação.
Pois é das singelas, domésticas ações
que se faz o júbilo nos bons corações.

Então por que não comigo, pergunto.
É o meu corpo longo e estranho?
Minhas pernas em desconjunto?

É claro que me sinto um marginal!
Não balanço como os outros, afinal.
E formatos nossos desconversam,
sem concordar em uma só afirmação…
É enquanto meus dedos versam
que enuncio certeza da falta de ação:
para o mundo não fui feito.
Não balanço. Não tem tem jeito.

E ponho a me perguntar:
em qual resto fétido de mundo
viverei eu comigo mesmo,
que não consigo – sem nem saber por quê –
balançar numa cadeira de balanço?