Helena

Ímã de força pequena,
como era vista Helena,
sem par para repelir
e sem lar para repartir.

Pobre Helena descamisada,
cuja sala era a calçada,
emissária de toda rua, ia,
ganhando a vida nua, ria.
Helena, quem te ama não te quer.
Seu ímã é fraco, é pouco ímã,
ninguém te olha quando te vê.
Helena, crente que lá em cima
algo a via na cidade quente,
orava só na sua sala.
Mas Helena destemida,
desjanelada na vida,
feliz seguia, dando e rezando.
Foto antiga do Brasil
solta no álbum da América.

Seu ímã não fortaleceu
e Helena, torta, arrefeceu.
Agora a rua sem Helena
é barata, rato e lixo.
Todos eles de preto
de luto eterno por Helena.

Anúncios

Corcunda

É que tudo parece um sonho
de portas arredondadas e paredes cinzas,
poeiras faveladas em livros antigos,
e andares breves de seres ainda mais breves
enquanto o organismo do mundo respira.

Naquela época os homens eram o sangue,
a saliva e a bile do mundo…
Os ossos e músculos do mundo…
Os cinco sentidos do mundo…

Batem palmas irônicas nossos ancestrais
no hall de mármore e ouro da eternidade
porque subtraímos os vasos do mundo
e hoje extraímos os dados do mundo.
Nós o (nos) transformamos em miragens.

A verdade, que sempre foi mulher íntegra,
agora deita estuprada, em chãos sujos,
por aqueles que dizem resgatá-la.
Ela já não chora por isso.
Ela é dividida e rasgada por isso.
Vai infeccionar por isso.
Ela está morrendo e pior:
há os que vivem bem sem ela.

E enquanto uns acreditam em seus calcanhares,
mas não em seus pés;
em seus polegares,
mas não em suas mãos;
vamos, sem hesitar, colocando filhos no mundo,
que tem úteros entupidos de plástico!

Viramos pixels do pouco nítido.
Pouco crítico.
Ou crítico demais…

Sem olhar para trás, sorrimos em festas.
E se não o fizeres… há uma pílula para ti:
a pílula do sorriso
feita pelos homens-deuses da ciência.
(a máquina invisível atrás da farmácia)

As mães e pais,
depressivos,
protegem os filhos
da depressão.

Mas não se preocupem!
As telas têm novelas para todos!
Elas têm gays, negros, mulheres pra ninguém surtar.
E pra te ajudar a morrer por instantes no sofá,
esquecer-se e aquecer-se,
sem notar a lua,
a chuva,
ou os segundos.

Estrelas da lagoa

Eu lembro de tudo:
as estrelas na lagoa ensolarada,
rebentas da água e da luz,
pulando de alegria contigo.
E você, de biquini e costas vivas,
tentava pegar os peixes com as mãos…

Eu tentava pegar o tempo com as mãos
E esticá-lo para sempre
e colocar no bolso dos séculos
você, com as estrelas da lagoa.

Pus o sal das lágrimas na água doce,
posto em pranto, peixes e perguntas:
de que vale qualquer outra coisa?
Por favor,
alguém avise aos diplomados,
aos drogados, imbecis e atletas,
que há estrelas na lagoa,
que vida é nada,
e que estão os artistas e os românticos
no topo da experiência universal.
Eu já cansei de dizer-lhes isso.

A grande mulher grisalha

Veja, meu amor,
como a juventude,
que tinha odor de cereja,
(fresca) esbraveja
em corpos que não os nossos.

Veja, meu amor,
como já não nos animamos
– como batiam felizes nossos corações! –
com as coincidências do trabalho…
Inanimados, quase! E as migalhas que juntamos
são agora pães
e não sabemos o que fazer com eles.
como terminar com eles.

Veja, meu amor,
como passaram velozes os dias,
e ainda assim são os mesmos, os mesmos!
Como espratearam nossos cabelos
(foi o tempo que pôde vencê-los)
e como nossas meninices ficaram marcadas
nas escadas de pedra da cidade,
nas estradas de terra do mundo,
nas paredes dos nossos crânios,
e no bolso larápio dos segundos.

Veja, meu amor,
como hoje estamos gastos.
Nos falta óleo, enferrujamos.
E mesmo que fujamos
para olhar a nós mesmos
em qualquer esquina ou festa,
saberemos sempre:
a juventude é tão bela que parece ser imortal.
E talvez não só pareça:
nos convence que é imortal;
nos veste como imortais;
nos ferve como imortais;
nos queima como imortais;
nos infla como imortais…

E depois, meu amor,
somos assaltados.

Sobre todos os reis do mundo

Desço escadas devagar
– as que se ergueram no nascer do reino –
e sinto o corrimão de ferro
já quente do sol
desta manhã preguiçosa.

Eu não comprei as pedras
que esquentam, a cada passo,
meus pés descalços.
Conquistei a terra, dizem.
Mas são as pedras minhas?

Eu não comprei as árvores de flores,
que assistem meu acordar diário,
tampouco os insetos e pássaros,
que nela vivem breves,
súditos que rei nenhum.

Vivem breves meus súditos,
entre trabalho e sorrisos sem direção.
Gastam suas horas misteriosas
em comércio, bebida, guerra, sexo.
E eu furo seus cotidianos constantes,
e eles me fazem gestos de saudação,
de homenagem – reverências calorosas.

Eu não comprei essa gente.
Não comprei suas casas, seus animais,
seus filhos e filhas que descobrem a vida.
Não comprei sua lealdade, sua simpatia,
não comprei suas lágrimas na derrota,
seus urros na vitória.
Essa gente é minha?

Pelo que conquistei me chamam rei.
Mas o tempo não para quando mando,
nem o sol some quando quero dormir.
Sou o Rei do que não importa,
como todos os outros antes de mim
e todos os outros depois de mim.

Mendigo

Resistentes na chuva
de pingos (amadurecem),
mas findou o pranto e a dor
da maturidade.
Fez-se do chão molhado
o cotidiano excelso de bueiros.
O que é o pecado
se Deus é a comida?
As núpcias valem postes,
asfalto, sinais, prédios.
Mas para as telas e janelas,
para os olhos do globo,
são filme mal avaliado.
O homem sentado.
O homem dormindo.
O homem sujo.
Se o tempo os engole,
vomita depois.