Rosto torto

O tempo não enferrujou a espada.
Fogo nas velhas flechas! Que caia o coração!
A cena perfeita dos finais ruins
e faço para a dor uma recepção.

Pois daqui a pouco, sumo!
Sumo com meus erros e acertos.
E como ficarão as pegadas
de quem nunca andou?

O sujo chão de concreto me abraça.
Desisti do amor em Copacabana,
retomei o amor em Copacabana,
e morrerei de amor em Copacabana.

Respondam-me os sábios,
apenas se resposta possível houver:
para onde vão, no final de um beijo,
os pensamentos de uma mulher?

Rua sem saída

Toda rua sem saída é uma morte precoce.
Vida incomple –
Sufoca sentidos – vejam!
Murchos, se misturam ao asfalto.

Os sábios percebem:
Parece ela sorrir presunçosa
Pois todos os pés que por ela andaram
Tiveram que voltar.

Mas guarda na coração breve
A frustração inerente
De não ser meio nem fim – ser erro.

Ninguém a busca porque morre cedo
E qual homem o quer? Qual homem a quer?
Sobre para andar por lá
Quem não vai a lugar algum.

Mundo de restos

Desceu para o porão meu pai
e encontrou-me encolhido,
amedrontado com os barulhos
não dos aviões, dos gritos.
Não das bombas, dos choros.
Não dos tiros, das mortes.
“Você deve ver uma coisa”
Disse-me o homem fardado
E obrigou-me a subir para ver a cidade.
Eu, fraco peixe de águas profundas,
tinha horror à superfície.
Havia muita luz e ignorância
(sempre desprezei iluministas).
“Vá”, disse meu pai, “será bom para ti”.

Ao segurar com as mãos trêmulas
a escada de madeira podre
desejei uma queda fatal.
Em vão. Cheguei ao final.

Vi uma massa marrom e preta
que era a pele do mundo:
se estendia decerto pelo globo todo.
Pensei na extinção da água – senti sede.
Pensei no fim das colheitas – senti fome.
Vi as árvores e seus galhos pelados
e minha mente em silêncio – senti frio
(nem um pensamento para aquece-la).

Era de fato uma paisagem de restos.
Restos de gente em restos de chão
rodeados por restos de prédios
queimados por restos de fogo
e restos de fumaça em restos de céu.
Os sons que restavam rastejavam répteis
enquanto que antes voavam aves.
Completude ali havia em mim
e em meu terror apenas.

“Eis aí, meu filho,
um país morrendo pela doença da guerra.
Um campo de batalha perdido
entre tantos outros…
Cenas que são consequencias esquecidas
de raciocínios bélicos.
Acredite em mim quando digo:
essa monstruosidade é uma gota
no oceano da podridão humana”.
Busquei razões em gavetas vazias
de que meu pai estava errado.
“É preciso endurecer a alma:
torná-la sólida.
Vive-se mais assim”.
Eu revirava as gavetas e procurava,
em desespero, no leve nada.
“Não aguenta mordidas quem não produz veneno.
E o mundo é cheio de serpentes”.
Morreu minha busca e nasceu meu choro.
Os restos de infância me pesavam
e meu pai desceu para o porão.

Chorei sozinho por horas.
Quando parei, não me incomodavam mais os restos.
Eu era parte dele. Responsável por ele.
Entendi: meu pai me fizera resto por amor
Pois num mundo de restos, um inteiro não tem lugar.
E eu e meu pai éramos também restos.
Só não tivemos a sorte de morrer.

Veloz segunda-feira

Passou rápida a segunda,
nem disse a que veio.
Entrou pela sala e correu
para sair pela porta às onze da noite.

Me perdeu, essa segunda-feira.
(Ou a perdem os homens?)
Mais tempo que me escapou igual.
Uma segunda-feira a menos
no meu relógio da vida.

Que medo macabro este
o medo da velocidade do tempo
passar como fórmula 1
numa manhã de domingo.

Passar como um homem sentado
numa poltrona que comprou há anos
passa os canais que não gosta na tv.

passar como uma mãe que para seu filho
procura ensinar como gira o mundo.
(e saberá alguém como o faz?)
Que procura esconder que todos
– o vovô, a vovó, o titio, a titia –
procuram esconder um medo:
o da segunda-feira passar rápido
e nem dizer a que veio.
Passar pela sala e correr
para sair pela porta às onze da noite.

Por mim, só eu

Morreu meu quarto virgem.
Construiu-se nele um arranha-céu,
como cidades ambiciosas
e suas casinhas
vítimas do progresso.

Sobe a manhã em seu tempo,
respeita o Sol e só.
Eu saúdo vossa luz
ou mando ao inferno esse azul?

Por mim, só eu.
Arranco as raízes que restam da infância
para não chorar a cada esquina.
Dói.

Por mim, só eu.
Nessa fuga e enfrentamento eternos
do mistério da morte iminente
até o ar me escapa por vezes.

Por mim, só eu.
E lágrima só minha, quente
é café que passa, mente.
E esquenta em fios meu rosto frio.

Por mim, só eu.
E faço um eco na câmara de meu tórax:
jamais o mundo precisou de mim
para conquistar o próximo segundo.

Por mim, só eu.
Ora novo, ora velho.
Ora em pranto, ora em prélio.
Passo após passo por acidente na vida.

Pensamentos da festa ruim

Os próximos dias de peso serão
E deve ceder minha plataforma
Meus esforços brilhantes, em vão,
Nesta cidade sem lei e sem norma.

Mas, por enquanto, festejo.
Chão de pedra, rubros sofás,
Paredes iguais como o meu desejo:
Marcha militar. Mudar? Jamais.
E tantos riem ao meu redor…
Estão em guerra.
Quantos amores essa guerra esconde?
Dançam tão leves, tão pó,
A alma berra.
Quer se livrar, ser horizonte.

Uma festa tão pobre e teatral
E eu preocupado com tudo.
Por que a peça insiste, afinal,
Se finda para um teatro mudo?

O almirante

Um excelso almirante
respira fundo em seus aposentos.
Senta-se a uma mesa
que onde dorme um mapa velho, rasgado.
A lamparina, como mágica,
revela as linhas de um homem pensante,
e seu efeito: rabiscos do sofrimento.

“Tantos dias e noites busquei
Refúgio n’outras águas – falhei.
Minha mentira sem teto
não tem mais relógios para morar.
Está na hora de enfrentar as ondas,
de arriscar afundar no imenso azul
para, enfim, crescer.”

Caminha lento o nobre comandante,
com voz minguante para ordenar
e dor crescente ao raciocinar.
A madeira o suporta, mas range
e o causa estranheza,
pois tamanho rugido nunca ouvira.
Nem do mar.

Uma casca de noz num nada.
“Curvado em meu convés,
no grande horizonte vejo que chegam
as tormentas de mudanças que virão.
E então? E então?
Pode um homem apenas chorar,
se curvado em seu convés,
no grande horizonte vê que chegam
as tormentas de mudanças que virão?
E então? E então?”